Quando puderes, abraça-me!

 

Acredito que os abraços encerram, dentro do seu meigo aperto, poderes verdadeiramente curativos. Acredito que somos mais felizes quando abrimos os braços para receber a presença de alguém que amamos ou a presença daqueles a quem desejamos o bem.

Subitamente, e sem nada que o pudesse anunciar, suspenderam-nos os abraços. Disseram-nos que tínhamos de reinventar formas de nos aproximarmos. Disseram-nos que somos contagiosos. Que somos ameaças uns para os outros e impediram-nos de ser livres no contacto com os outros.

Estou consciente do preço a pagar por receber um abraço ou por decidir ser protagonista na dádiva de um. No entanto, prefiro que me abracem. Prefiro que não tenham medo da minha pele (incessantemente desinfetada durante os últimos meses como mandam as NOVAS leis!).

Prefiro que me abracem e prefiro ser abraçada. No entanto, tenho de esforçar-me por compreender que as pessoas que me rodeiam podem não estar confortáveis com essa minha pequena loucura de quem já tem medo de poucas coisas.

Na verdade, e acredito nisto que agora escrevo de todo o coração, todos preferimos que nos abracem. Todos preferimos que os outros não sintam medo de se aproximar dos nossos contornos. Todos preferimos abrir os braços e esticá-los na esperança de que cresçam para agarrar, ainda mais apertadamente, os que nos são tudo.

Que tempos incrivelmente tristes, estes. Em que não nos podemos consolar como antes fazíamos. Em que temos medo dos nossos amigos, da nossa família, dos nossos colegas, das pessoas que estão connosco no supermercado, das pessoas que tomam um café na mesa ao nosso lado, das que caminham na nossa rua.

Ainda assim, e apesar de toda a dor que podemos sentir pela ausência de abraços por tempo indeterminado, há formas de amar bem. De mostrar bem o nosso amor e a nossa presença, ainda que não possamos cair nos braços uns dos outros.

Em tempos incrivelmente diferentes e turbulentos, onde uma onda parece erguer-se atrás das costas de todos nós, é preciso olhar para os outros com as mãos. Isso. Colocar a força de um abraço dentro dos olhos e deixá-lo voar quando poisarmos os nossos olhos no rosto dos que nos dizem (e são) tanto.

É preciso oferecer às nossas pessoas a certeza de que não gostamos menos delas. Gostamos mais. E por gostarmos tanto é que nos afastamos.

Ainda que possamos ser portadores de um vírus invisível que veio desarrumar tudo, que saibamos ser portadores de olhares cheios de abraços, de beijos e da luz que se acende na nossa pele quando nos aproximamos dos que nos enchem os dias de asas. E de voos bonitos.

~ Marta Arrais

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