Amanhecer

A melhor herança que deixaremos uns aos outros é o amanhecer. Não são os feitos concretizados, mas o espaço em aberto que, porventura, o nosso contributo tornará, para alguém, mais nítido. Não é o chão com os traços confusos de todos os passos que demos, mas um chão varrido, um pano sem demasiados vincos o dom mais precioso a restituir. Não é apenas a vida como resumo de uma história, por extraordinária que ela seja ou tenha sido, mas a ousadia de repropor a vida, a vida como intacta possibilidade que nada é capaz de exaurir. Porque a natureza da vida, a sua real dimensão, o seu deflagrar espantoso depende não só do que pudemos objetivar, mas sobretudo daquilo que outros farão com o que nos atravessou. As nossas trajetórias são apenas uma parte: não são a viagem. Todos os navegadores solitários de que ouvimos falar não fizeram outra coisa que habitar um sonho de viagem, que mesmo quando vivido apaixonadamente nunca o detiveram como exclusivo seu: receberam de outros e a outros o passaram. E quando cumpriram tal transmissão nem sabiam exatamente a quem se destinava. Mas a chuva não conhece tudo aquilo que molha. Nem o sol escolhe áreas delimitadas a iluminar. A melhor metáfora da existência não são as mãos que se fecham, mas as que se escancaram e, por fim, se reconhecem no brilho da própria nudez.

A palavra que suporta a vida não pode ser, por isso, a palavra “medo” e, se pensarmos bem, aceitámos por demasiado tempo transportá-la dentro de nós. Talvez, quem sabe, a tenhamos carregado até este momento e essa constitua ainda agora a nossa carga mais inútil. Pelo contrário, a pedra angular da construção, o motivo auroral, peregrino e de futuro é, sim, a palavra “confiança”. A adesão a ela não se faz, contudo, sem um processo, paciente, complexo, esforçado. Equivale dentro de nós a um parto. Coisa mais do que justa, pois a confiança supõe que percamos o medo aos sucessivos nascimentos que se abrem para nós. A palavra “confiança” não se move apenas entre garantias, pois nunca as teremos todas. É interessante perceber que outras palavras lhe podem estar associadas. Recordo que o filósofo Blaise Pascal associava à confiança a palavra “aposta”. E que Kierkegaard, por sua vez, desafiava a que se lhe associasse a palavra “salto”. São avisos úteis e que explicam como se chega lá. A confiança é uma máquina de construir hipóteses de amanhecer.

Tem tanto a ensinar-nos o amanhecer, essa forma indómita e serena em que a terra plasma, a cada 24 horas, o seu (e o nosso) desejo de reviver. A luz tem, nessa ocasião, uma respiração leve, desarmada, discretamente bruxuleante. Uma réstia de laranja ou de rosa é sugestão suficiente para tornar aceso o horizonte. E quando vemos caminhar a luz a nosso lado com os seus passos pequenos, os seus passos de algodão, os seus trapos infantis ornados de joias tão incríveis compreendemos que também para nós alguma coisa começa. Deveríamos parar mais vezes a contemplar a manhã como um poste de luz que reforça a nossa, como uma robustez que nos sonha, como uma mão estendida que nos defende. Deus está na manhã. Ela é misteriosa e ampla por isso. Exibe a sua bondade. Destapa o seu sorriso. Não admira que as coisas verdadeiramente importantes que recebemos dos outros sejam um amanhecer. E que as que podemos deixar também.

~ José Tolentino Mendonça

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