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A vassoura

Uma vez ouvi a um monge que o modo mais rápido de nos adaptarmos a uma nova situação é pegar numa vassoura. Ele contava com realismo que, ao longo da vida, tudo lhe custou: chegar a um mosteiro novo, encetar um novo ciclo, uma estação diferente, iniciar-se numa ulterior etapa do caminho. Mas que a vassoura (em modo literal ou figurado), mais do que qualquer outra coisa, foi a facilitadora indispensável em cada um desses momentos. Fiquei a pensar nisso. É uma importante aprendizagem a que nos faz preferir a vassoura à cadeira, à cela ou ao cetro. A vassoura tem um registo humilde, é verdade. E, não raro, desarma tanto as nossas expectativas e as idealizações de que partimos como as disposições bem arrumadas do protocolo social. Porém, o conhecimento que ela nos oferece é imediato, flagrante, concreto, focado no minúsculo, atento aos detalhes, colado ao espaço da existência e ao seu quotidiano ritmo. Podemos conhecer de muitas maneiras uma determinada realidade, mas nunca a conheceremos de forma tão certeira como aquela que nasce do investimento do nosso cuidado. Cuidar é, no fundo, aquilo que nos permite conhecer. Os planos que vamos urdindo de um ponto de vista mais teórico ou mais distanciado — como o exige, por exemplo, uma leitura crítica — têm seguramente a sua relevância e oportunidade, mas não podemos esquecer que, em si mesmos, são ainda mapas aproximativos. As ideias valem muito: não valem, contudo, só por si. Precisam daquela adequação que só a prova da aplicabilidade lhes traz. Contudo, uma relação mais plena, mais dialógica, mais incisiva tem início quando, num gesto mínimo como representa aquele de pegar numa vassoura, passamos de espectadores a atores. Há um saber que nos vem apenas pela entrega voluntária ao serviço.

Em momentos diferentes da nossa vida, quando não é claro o que podemos fazer ou por onde começar, estendamos a mão a uma vassoura. A vassoura vai sujar-nos as mãos e ensinar-nos, desse modo, uma imensidão de coisas às quais, de outra maneira, dificilmente acederíamos. O poeta Charles Péguy escreveu, com razão, que quando nos recusamos a sujar as mãos no cuidado da vida acabamos rapidamente por ficar sem mãos. É um facto: muitas vezes vivemos sem mãos, perdemos as nossas mãos lá atrás em alguma etapa do caminho, esquecemo-nos do seu significado, da sua função, e, por anos e anos, não temos consciência disso. A vassoura — e o que ela simboliza — realiza também um providencial movimento de resgate em relação a nós próprios. Na verdade, as mãos que se dão também se descobrem como mãos, como operadoras do dom, como protagonistas da história. As mãos que se dão escutam finalmente o seu idioma; compreendem que se cumprem não como afasia, mas como linguagem. Por isso, a vassoura tem tanta sabedoria a transmitir-nos: revela que o exercício prático do cuidado (a começar pelo cuidado ínfimo, elementar) nos permite, ao mesmo tempo, o conhecimento do ponto onde estamos no mundo e do ponto onde estamos em nós próprios.

Acontece-nos desistir de pensar na felicidade, porque a associamos, sob condição, a uma lista longa e desorbitada de fatores. O elenco dos ‘ses’ que vamos somando torna a felicidade inacessível e isso tem um preço: o de conformar a nossa visão com essa declaração de impossibilidade. Um passo importante ocorre, porém, quando temos a coragem de reajustar os nossos motivos de gratidão e de deslumbramento. Recordo-me de um poema antigo que diz: “Não posso ser mais feliz./ Vou buscar água ao poço./ E varro as folhas do meu pátio”.

~ José Tolentino Mendonça

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