Só quero o que tiver que ser meu!

No próximo ano, e em todos os que estiverem para vir depois, quero
O sossego e a sabedoria que têm as mãos dos velhos quase no fim da vida,
A alegria sem razão das crianças que brincam sempre sem saber porquê,
A serenidade das árvores que, mesmo nunca tendo saído do mesmo sítio, nunca perdem a esperança de renascer
A velocidade dos rios que, sem mágoa, adormece os peixes que nadam fora do alcance da nossa vista
A calma das ondas que vivem no mar e o silêncio dos oceanos que não têm ondas,
O sorriso de quem espera alguém no aeroporto,
Trazer no coração o cheiro que tem o pão acabado de fazer,
A falta de rumo do vento (que vai para onde tem que ir),
A luz que se espreguiça em cada raiozinho de sol,
A frescura da chuva que cai sem nunca se cansar,
A leveza que está dentro dos olhos dos pássaros,
A certeza dos dias que voltam a nascer,
A falta de pressa do anoitecer (que sabe despedir-se, com carinho, dos dias que estão para morrer),
Trazer no coração o cheiro da terra depois da chuva,
A esperança dos dias que estão para vir,
A fé na bondade das pessoas,
A vontade de perdoar outra vez,
Caminhos para percorrer,
Paisagens para amar,
Páginas para escrever,
Tempo com aqueles que tiveram sempre tempo para me salvar,

Não. Não quero tudo. Só quero o que tiver que ser meu.

~ Marta Arrais