O verbo dançar

A dança exige verdade. Quando se dança, diz-se a verdade. Fica-se completamente a descoberto.

É um slogan assinado por Emma Goldman, uma anarquista americana, inspiradora do movimento feminista. E ela repetia-o incessantemente: “Se não puder dançar, essa não é a minha revolução.” Emma só acreditava numa revolução onde fosse possível dançar. Mas o que é a dança? O século XX ensinou-nos que a resposta deve ser buscada não apenas nas academias, entre os profissionais e especialistas, mas no pulsar de tudo aquilo que vive, na pura exposição a esse real, ao real sem mais, que numa simples fração de segundo coloca, diante dos nossos olhos, movimentos e fluxos coreográficos, imperfeitos, inacabados, mas também cintilantes e desmedidos. Se olharmos em redor, há uma dança. As nossas cabeças dançam, os nossos corpos dançam, as árvores dançam… A dança não exclui absolutamente nada nem ninguém. O pensamento contemporâneo sobre a dança explora precisamente isso: a possibilidade de articular os movimentos que facilmente descreveríamos como dança com todos os outros, os quotidianos, utilitários, impuros e ínfimos. Na verdade, a dança passou a ser concebida para qualquer corpo e lugar, com ou sem música, com ou sem narrativa, interpretando as contingências e os incidentes como possibilidades. Tudo dança, tudo é dança. É dança varrer o pátio ou assistir parado ao espetáculo do vento que reparte as folhas. É dança abrir um livro, uma carta, uma janela ou o coração. É dança cada passagem…

Faz por isso todo o sentido o repto que Martha Graham, uma das coreógrafas que reinventou a dança, repetia: “Levanta-te e dança.” Apenas isso. A dança clássica construiu-se na sedução pelo voo. As bailarinas caminhavam em bicos de pés como se não caminhassem, e os seus corpos tentavam exprimir, em ascensão, um ideal de transparência, leveza e perfeição. Para Martha Graham, porém, o fundamental da dança é valorizar o contacto com o chão, realçar a conexão entre a nossa respiração rente à terra e o nosso humilde prosseguir. Isso que explica assim: “A dança é uma canção do corpo, uma canção de alegria e de dor. A dança é descoberta, descoberta, descoberta… A dança aprende-se com a prática. Trata-se de aprender a dançar experimentando, como aprendemos a viver fazendo a experiência da vida. O princípio é o mesmo. A ninguém importa se és forte, se atinges conseguimento na dança. Importa apenas isto: levanta-te e dança.”

Tudo é dança, é certo, mas ela exige uma coisa, e fá-lo sem nunca ceder: exige verdade. Quando se dança, diz-se a verdade. Fica-se completamente a descoberto. A própria saúde física está à vista; a psíquica de igual modo. É impossível dançar sem se ser o que se é, na aceitação honesta da nossa pobreza, lacunas, dilemas, esperanças, inflexões. Não se dança porque se domina a ciência da dança ou da vida. A maior parte das vezes é o contrário, como ensina Pina Bausch: “Existem coisas que nos deixam sem palavras, completamente perdidos e desorientados, e não sabemos mais o que fazer. Neste ponto começa a dança.” A dança mistura, deste modo, vazio e indagação. Não é um artifício, um truque, uma habilidade, um passe. É uma sede e um grito.

Há uma bailarina italiana, uma mulher impressionante, que nasceu sem braços e que, mesmo assim, dança com uma intensidade comovedora. O seu testemunho fica, por longo tempo, a ressoar dentro de nós: “Cada vez que penso no meu corpo”, diz ela, “imagino que ele se move no espaço e no tempo. Este é o único modo que conheço para exprimir-me a mim mesma e para sentir-me livre.” E acrescenta, depois: “Deus desenhou-me sem braços, e eu danço para ele.” Ela ajuda-nos a compreender o provérbio aborígene que diz: “Quando dançamos até à aurora, a lua compadece-se de nós.” Dancemos, pois.

~ José Tolentino Mendonça [in Revista Expresso, Edição 2283 de 30/07/16]